Cenas da luta de classes na China

Robert Weil


Numa série de encontros que realizei durante o Verão de 2004 com operários, camponeses e activistas de esquerda em diferentes regiões da China, apercebi-me dos efeitos das transformações massivas ocorridas nas três décadas após a morte de Mao, com o desmantelamento da política revolucionária socialista praticada sob a sua direcção e o regresso à “via capitalista”. Uma sociedade que se contava entre as mais igualitárias está a sofrer uma polarização acelerada entre uma riqueza extrema na cúpula e as péssimas condições de vida de operários e camponeses.
Os operários com quem falei são alguns das dezenas de milhões que foram despedidos dos seus anteriores empregos nas empresas estatais e que perderam praticamente todas as formas de segurança social adoptadas nessas empresas: habitação, educação, saúde, pensões de reforma. A transformação das empresas estatais em sociedades vocacionadas para o lucro – umas vendidas na íntegra a investidores privados, outras semiprivatizadas – foi acompanhada por uma corrupção desenfreada. Funcionários do partido e do Estado aliam-se aos novos empresários privados, criando uma florescente classe capitalista, enquanto a classe operária e outros trabalhadores são explorados de uma forma que não se conhecia na China há meio século.

Migração em massa – Os camponeses com quem me encontrei debatem-se com as consequências da dissolução forçada das comunas rurais e a introdução do sistema de responsabilidade familiar, no qual cada família contrata com a aldeia a exploração de uma porção de terreno. Com a abertura sem entraves do país ao mercado global, a venda de terras pelos funcionários do Estado a investidores sem uma compensação adequada aos aldeões e a destruição ambiental das áreas rurais, centenas de milhões de pessoas foram forçadas a procurar noutros sítios um meio de subsistir. Mais de cem milhões passaram a fazer parte da emigração maciça para as cidades, procurando trabalho na construção, nas fábricas que produzem para exportação, ou nas tarefas mais duras e perigosas, onde não dispõem dos direitos mais elementares. Para muitos destes migrantes em condições precárias, as condições de vida estão a deteriorar-se rapidamente.

Conflitos sociais – As classes trabalhadoras chinesas não têm ficado passivas perante esta degradação das suas condições de vida e a perda de direitos obtidos com grande sacrifício durante a revolução. Os conflitos sociais têm crescido para níveis há muito desconhecidos. Operários, camponeses e outros migrantes têm levado a cabo algumas das maiores manifestações em todo o mundo, envolvendo por vezes dezenas de milhares e conduzindo a violentos choques com as autoridades. O próprio ministro da Segurança Pública divulgou relatórios nos quais se admite que os “incidentes em massa ou manifestações e distúrbios” subiram a 74 mil em 2004, quando tinham sido 58 mil em 2003 e 10 mil uma década antes.
A instabilidade social está a tornar-se uma ameaça para os dirigentes do partido e do Estado e já deu lugar a mudanças de política, numa tentativa para impedir uma agitação maior ainda. Mesmo as chamadas novas classes médias de profissionais e gerentes e a camada de universitários formados, em rápida expansão, está a fragmentar-se. O custo da educação – praticamente gratuita no tempo de Mao – está a tornar-se proibitivo, especialmente para as classes trabalhadoras. Os que completam os cursos têm grande dificuldade em arranjar empregos. As vantagens trazidas pelo desenvolvimento económico, em especial um maior acesso a bens de consumo e uma maior mobilidade e oportunidades de emprego, são negadas a milhões de chineses devido ao fosso crescente entre as classes. A China está a entrar num período de aguda luta de classes e de incerteza política que não terá resolução fácil.

Divisões populares – Pareceria, à primeira vista, que a condição semelhante dos operários urbanos, dos migrantes e dos camponeses, e mesmo de muitos membros da classe média, favoreceria uma ampla unidade de luta contra os que os exploram. Mas, como também acontece nos Estados Unidos e noutros países, a unificação das classes trabalhadoras é mais fácil de conceber em teoria do que de realizar na prática. Aos preconceitos enraizados dos chineses urbanos pela população dos campos soma-se a concorrência causada pela migração massiva para as cidades, e a manipulação destes conflitos pelo poder, perito em dividir para reinar. Os media jogam com estas divisões e promovem más relações entre os diferentes grupos. De qualquer forma, a distância entre os rendimentos urbanos e rurais – de 3,3 para 1, uma das mais elevadas do mundo, dá a base para essa manipulação.

Acções dispersas – Em Kaifeng, onde a maioria das empresas estatais foram encerradas, deixando 100 mil trabalhadores no desemprego, os operários apercebem-se da importância de forjar a sua unidade para resistir. Depois de alguns encontros de representantes de cada uma das empresas, houve manifestações de protesto conjuntas. O que é difícil é ligar as lutas de operários e camponeses. Enquanto estávamos na cidade, foram presos 20 operários numa fábrica, ao mesmo tempo que, nos arredores, um grupo de camponeses, furiosos pela expropriação das suas terras, danificavam um edifício governamental e bloqueavam as estradas. Mas, como não houve qualquer ligação entre as duas acções, as autoridades conseguiram superar a crise.

Brutalidade da repressão – Crescem por todo o país as acções de protesto operárias em larga escala, conseguindo algumas vitórias, mas terminando em geral pela prisão dos activistas. O poder local não transige com uma resistência que põe em xeque a sua autoridade e estorva o progresso da privatização das empresas. Em contrapartida, nas zonas rurais, onde a política oficial é a melhoria das condições de vida dos camponeses, o esmagamento dos protestos populares pode tornar-se mais brutal, porque não chegam aos noticiários. Em Dezembro de 2005, uns vinte aldeões de Dongju, na província de Guangdong, foram mortos quando protestavam por não lhes ter sido paga uma compensação suficiente pela expropriação das suas terras.

Retorno da esquerda – O que há de novo no lento renascimento das ideias de esquerda na China é que ele se verifica agora sobretudo entre as massas trabalhadoras e não no meio intelectual. Um dos aspectos que ressaltou das discussões que tive com operários na cidade de Jengju foi o sentimento de propriedade que eles manifestavam em relação às fábricas onde trabalham. Apesar das limitações que sempre teve o controle da classe operária nas fábricas estatais – o que resultou na sua incapacidade para se opor às reformas capitalistas de Deng Hsiao-ping – nota-se que eles vêem a privatização das fábricas como um roubo da sua propriedade colectiva. “A China – disse-me um operário desta cidade – não é como os Estados Unidos, onde nunca houve socialismo”.


* Extraído de “Conditions of the Chinese working classes”, Monthly Review, nº 2/58, Junho de 2006. www.monthlyreview.org).

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