Já lá vai o tempo em que nos tratavam como “indígenas”

Entrevista por Inês Rodrigues e Ana Barradas


Kamel, jovem francês de origem argelina, é militante do MIB (Mouvement de l’immigration et des Banlieues) em Montpelier. Chamou a nossa atenção no Encontro Internacionalista Sokoa III, organizado pelo Batasuna no País Basco em Agosto passado, pelo seu modo incisivo de falar, sem o discurso político tradicional, sem retórica e directo ao assunto

O que é o MIB?
É um movimento que se ocupa da luta dos imigrantes e dos habitantes das banlieues, os bairros periféricos das grandes cidades, a maior parte de origem estrangeira e a viver em situações de exclusão.

Quais as vossas áreas de luta?
Batemo-nos contra a repressão policial, falta de condições de habitação, problemas com a justiça, desemprego e prestamos apoio aos presos. A participação desses jovens na luta contra o CPE no Verão de 2006 reforçou a nossa acção resistente, de forma que actualmente o MIB coordena as diferentes organizações de bairro por toda a França.

Podes-me dar um exemplo de uma acção do MIB?
Existe em Montpelier uma banlieue chamada Petit Bard, composta maioritariamente por população imigrante. Os prédios estão muito degradados e o bairro está isolado da cidade: não há transportes colectivos.
Sem nenhuma consulta popular, a Câmara decidiu construir outro bairro, concebido para classes médias. Não podíamos mudar para lá, por falta de condições económicas para as despesas que a nova situação comportava. Por estas razões, os habitantes de Petit Bard ficaram revoltados e organizaram um movimento de resistência, não aceitando a mudança e pondo em causa a actuação dos burocratas.


Quais são os modos de intervenção?
Organizar manifestações e denúncias públicas envolvendo o máximo de habitantes dos bairros. Dou um exemplo, a violência da polícia: as pessoas são controladas, presas, incomodadas e é normal a polícia provocar mortes. Há duas semanas morreu um jovem, rebentam revoltas a todo o momento e os meios de comunicação não dizem nada. Há uma censura generalizada.

Têm apoio dos sindicatos?
Os sindicatos não quiseram deixar-nos participar nos protestos contra o CPE, chegando a formar cordões de segurança para nos impedir de entrar nas manifestações e agredindo-nos. Houve até uma carga dos sindicatos dos serviços contra nós, por decisão dos sindicalistas que dirigiam a manifestação.

E os partidos políticos?
Vimos como os nossos pais eram manipulados pelos partidos. Diziam-lhes: “Faz assim! Diz isto!”, tratando-os como “indígenas”. Por isso decidimos agir autonomamente.

A vossa relação com os meios de comunicação é boa?
Os meios de comunicação não querem falar connosco e ocupam-se sobretudo em sujar a nossa imagem. O presidente da Câmara chama-nos “terroristas de bairro” e “rede adormecida”, uma espécie de al-Qaida dos bairros, só porque fazemos concentrações, temos as nossas rádios, organizamos os sem-papéis e apoiamos a população.

Como vai ser no futuro?
Continuaremos a combater o preconceito que se formou na mentalidade do francês médio contra os jovens das banlieues. Guiando-nos pela tradição da Marche des Beurs*, queremos formar um movimento de imigrantes organizados que leve a população marginalizada a emancipar-se e a agir autonomamente. Denunciamos o sistema político que nos rejeita e continuaremos a bater-nos para os bairros terem uma palavra autónoma.


*A iniciativa de 1983 pela igualdade e contra o racismo, que partiu de Marselha a 15 de Outubro e chegou a Paris em manifestação triunfal, com 150 000 participantes. Foi a primeira manifestação nacional contra o racismo e culminou com um encontro dos líderes da marcha com o então presidente François Mitterrand, que concedeu a todos uma autorização de residência e de trabalho válida por 10 anos, renovável automaticamente. Um jovem cantor daquela época, Karim Kacel, tornou célebre uma canção hoje mítica, que dizia: Eh banlieue! si tu ne me laisses pas tomber...

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