Novo passo na liquidação da indústria vidreira

Licínio Sousa


Mais duas fábricas de vidro cessaram a produção nos últimos meses: a Marividros, da Marinha Grande, e a Dâmaso, da Vieira de Leiria, mandando para a rua, respectivamente, 180 e 400 trabalhadores. Em breve, da vidraria manual que fez a história da Marinha Grande só irão sobrar meia dúzia de pequenas empresas.
Na Vieira, sobretudo, a situação das famílias operárias está a tornar-se dramática. Quando acabarem os subsídios de desemprego, não lhes restará qualquer recurso. A fábrica de limas, que em tempos chegou a ter mil operários, trabalha por temporadas e com pessoal reduzido. A fábrica de aços quase não dá emprego. Vieira de Leiria é uma terra devastada.
Esta situação de crise profunda culmina duas décadas de uma ofensiva concertada contra o sector vidreiro. Primeiro, foi o cavaquismo, que, nos anos 92-94, encerrou pela força a Fábrica Escola Irmãos Stephens, a Ivima e a Manuel Pereira Roldão, e despejou centenas de trabalhadores no desemprego, com o argumento de que havia excesso de produção, excesso de pessoal, excesso de custos…
Vieram depois os programas de reconversão e investimento, o Provir, o Convir e o Intervidro, os estudos de Veiga Simão, Ernâni Lopes, Daniel Bessa, Augusto Mateus, Raposo de Magalhães… Cem milhões de euros foram canalizados pelo Estado e pelo Fundo Social Europeu para as empresas. Garantiu-se que a indústria iria ser relançada. Mas, depois das grandes expectativas criadas e dos milhões injectados, o resultado foi o encerramento de duas dezenas de fábricas, lançando na rua mais de 2000 trabalhadores. O fecho recente da Marividros e da Dâmaso vem completar este quadro dramático.
Porque aconteceu isto? Porque, ao contrário do que se disse, investiu-se, não para levantar as empresas, mas para calar as bocas de alguns industriais enquanto se aplicava um plano de esvaziamento da indústria do vidro. Quem pagou os custos desta manobra foram os operários, que se viram sem trabalho e, pior que isso, sem receber aquilo a que tinham direito. À custa dos salários que ficaram por pagar a milhares de trabalhadores, houve quem comprasse quintas, iates e carros de luxo.
E agora? O drama do desemprego dos vidreiros foi levantado numa das últimas reuniões da Assembleia Municipal. Aprovou-se uma petição ao governo. Mas o problema não se resolve mandando um papel para Lisboa e lavando as mãos. Há que apurar responsabilidades. Já deveria ter sido exigida a apresentação de um Livro Branco sobre o destino que levaram os fundos entregues à cristalaria. Enquanto choveram milhões, a Associação dos Industriais de Cristalaria reunia, mostrava-se activa – até patrocinava ralis para se fazer popular –; agora, quando se trata de prestar contas pelo desastre social em que se afunda a região, ninguém a vê. O IAPMEI diz que não consegue contactá-la.
O problema só pode ser enfrentado com a determinação dos próprios trabalhadores. Até agora ainda não se viu contudo da parte da CGTP a atenção que o caso merece. Na manifestação distrital de 25 de Novembro, nem sequer foi proposta uma moção sobre os meios de luta contra a crise na Marinha Grande. Está a fazer falta a acção directa e aguerrida dos trabalhadores, como na altura da “guerra das pedras” de há doze anos, quando a polícia de choque se viu cercada na esquadra pela multidão enfurecida.

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