Referendo sobre o aborto

A hipocrisia dos privilegiados

Ana Barradas


Anualmente 20.000 mulheres recorrem ao aborto clandestino. 360.000 mulheres entre os 18 e os 49 anos já o fizeram. Milhares de outras ficaram com sequelas psicológicas e físicas, incluindo a esterilidade permanente.
Todos os anos, milhares de mulheres chegam às urgências dos hospitais com hemorragias, infecções e outras complicações decorrentes de abortos clandestinos. São sobretudo jovens adolescentes ou mulheres desfavorecidas económica e socialmente que não têm meios para recorrer a um aborto clandestino em clínica privada ou deslocar-se ao estrangeiro.
Para entender as resistências à despenalização, nada melhor do que algumas citações da campanha em curso:


“As populações em geral estão a ver-vos e a ouvir-vos, nos telejornais, a discorrer sobre estas coisas do aborto e sobre as razões que vos levam a defender o “não” à lei de despenalização e logo, sem que vós lho mostreis, começam a ver também o outro lado da realidade que é a vossa vida de privilégios. E não podem tomar-vos a sério. Tudo em vós soa a oco, a hipocrisia, a faz-de-conta. Na verdade, sois católicas, católicos de barriga cheia, de privilégios, dotados de capacidade financeira para, nas aflições duma gravidez indesejada, recorrerdes a clínicas privadas clandestinas no país ou, de preferência, no estrangeiro. As populações sabem que é assim, por mais que vós tenteis convencer o país do contrário.”
Padre Mário de Oliveira, Fraternizar, 11/1/07

“Não se viu nunca um progenitor ser julgado nem nenhum homem se apresentou em tribunal como conivente no ‘crime’ [de aborto] por ter participado na concepção. É a vida dessas mulheres que está em jogo. É essa a verdade nua e crua. Como é que isso ofende?”
Madalena Barbosa, Público, 4/1/07

“Vamos pedir ao Senhor pelas grávidas em perigo.”
Pároco do Chiado, 14/1/07

“Os cristãos que vão votar ‘sim’ serão alvo de excomunhão, a mais pesada das censuras eclesiásticas.”
Cónego Tarcísio Alves, pároco de Castelo de Vide

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