Abbas trai os palestinianos


Ao convocar eleições antecipadas, o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, franqueou um novo passo em direcção a um golpe de Estado para derrubar o governo do Hamas e esmagar a corrente combativa palestiniana. A chefiar esta manobra, os Estados Unidos e Israel, decididos a pôr um ponto final na resistência. Mas o desenlace desta nova provocação é incerto.

Governos e comunicação social deram grande relevo à “coragem” de Mahmud Abbas ao ir ao encontro do primeiro-ministro israelita Olmert em Jerusalém, para “explorar vias de solução da crise”. A realidade nua e crua é que Abbas foi pedir a Israel qualquer concessão aparente que reforce a sua posição quando acaba de desafiar a opinião maioritária palestiniana com o anúncio da antecipação das eleições.
Em resposta, Olmert apenas prometeu libertar uma dúzia de prisioneiros, das dezenas de milhares que tem nos campos de concentração, e desbloquear um décimo das verbas pertencentes à Autoridade Palestiniana e retidas ilegalmente desde que o Hamas ganhou as eleições, há um ano.
Mas Abbas e a direcção da Fatah têm que jogar tudo por tudo, mesmo à custa de se degradar como colaboracionistas, porque já estão completamente comprometidos na manobra posta em marcha por Washington e Israel.


ESCALADA DE PROVOCAÇÕES

O plano para o golpe de Estado começou a ser gizado em Washington imediatamente a seguir à vitória eleitoral do Hamas. Começou com o corte de todo o apoio financeiro à Palestina, para asfixiar o novo governo. A seguir, o governo israelita lançou a invasão do sul doLíbano, prendeu um terço dos membros do governo do Hamas, com o pretexto do soldado aprisionado, intensificou os bombardeamentos e massacres em Gaza, prende ou assassina membros da Fatah que resistem à política colaboracionista dos seus dirigentes.
A direcção da Fatah, pela sua parte, explorou o desespero da população privada dos vencimentos fomentando greves e conflitos constantes, de modo a bloquear a acção do governo do Hamas. Apresentou exigências intermináveis e, como o Hamas não se deixou envolver nas sucessivas provocações, passou a um clima de guerra civil, com assassinatos selectivos. Procura-se por todos os meios levar o Hamas a começar a guerra contra a Fatah para depois esta pedir a intervenção dos EUA e de Israel e esmagar o movimento palestiniano radical.
No comando das operações, o governo norte-americano, por intermédio de Condoleezza Rice, tem empurrado Abbas e a direcção da Fatah na via da traição, com dinheiro e com armas. A convocação de eleições é apenas o cenário apropriado para servir de cobertura “legal” a um golpe de Estado. O objectivo é correr com o governo eleito do Hamas, por votos ou a tiro. Milhares de espingardas estão a ser transferidas do Egipto e da Jordânia para as forças de Abbas; destacamentos militares palestinianos estacionados na Jordânia estão a ser deslocados para Gaza; instrutores norte-americanos, britânicos, egípcios e jordanos treinam a guarda da Fatah em Jericó.

Está montado o cenário para um enfrentamento sangrento. Numa argumentação típica dos agressores de todas as épocas, classifica-se as vítimas como “terroristas” e os opressores como vítimas. Declara-se ilegítimo o regresso dos refugiados palestinianos às suas terras e decreta-se a legitimidade de Israel como Estado judaico racista. Reduz-se um milhão de palestinianos dos territórios à fome para quebrar a sua determinação de luta. Para tornar tudo mais odioso, a ONU e a União Europeia, os mentores dos acordos de Oslo e as ONGs ao seu serviço, todos os falsos “amigos da Palestina” instalados em Ramalah, afirmam o seu desejo de evitar uma guerra civil enquanto absolvem os agressores e condenam as vítimas.
Há contudo uma diferença em relação aos anos 90: hoje as forças da resistência que se agrupam em torno do Hamas estão bem armadas e poderão responder ao golpe de força em preparação. Os opressores do povo palestiniano e os seus patrões imperialistas poderão sofrer na Palestina um desaire semelhante ao que tiveram há pouco tempo no sul do Líbano.

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