O que empurra os Estados Unidos para a guerra?

Manuel Raposo


Perante as dificuldades crescentes em manter a supremacia económica, o imperialismo norte-americano comporta-se como um devedor que mantém os credores em respeito apontando-lhes uma pistola à cabeça


É comum atribuir-se a política belicista dos Estados Uni­dos a “desvario” da administração Bush e a “radicalis­mo” dos chamados neoconservadores. E, nesta linha, su­põe-se que uma derrota dos republicanos em 2008 impli­cará uma mudança de política e um regresso “à diplomacia”. Con­trariamente a esta ideia, nem os factos mais recentes, sub­sequentes à vitória dos democratas nas eleições para o Con­gresso, nem o conhecimento dos interesses de fundo das classes dirigentes norte-americanas, fazem acreditar na­quela possibilidade de mudança pacífica.
Com efeito, na primeira oportunidade que tiveram para travar o empenhamento guerreiro de Bush – a votação em Mar­ço de um orçamento suplementar para o Iraque – os democratas não o fizeram. Pelo contrário, aprovaram mais 127 mil milhões de dólares. Procuraram, é certo, contraba­lançar este apoio prático à guerra com a imposição de uma data para a retirada das tropas (o Verão de 2008). Mas en­quanto a aprovação da verba dá de imediato a Bush a pos­si­bilidade de prosseguir a agressão, a data de retirada é de eficácia questionável, até por poder ser vetada pelo pre­si­dente, como de resto Bush já prometeu.

As classes dominantes dos EUA podem estar divididas sobre a forma de resolver o impasse iraquiano. Mas nada as fará pôr em causa os interesses que ali e em todo o Mé­dio Oriente se jogam. O relatório Baker-Hamilton en­comenda­do por Bush para comprometer os democratas com a solu­ção a aplicar ao Iraque sublinha precisamente a necessidade de um entendimento bipartidário sobre o assun­to e coloca aci­ma de qualquer outra coisa a defesa dos interesses norte--americanos na zona. Foi este compro­misso da parte dos democratas que permitiu a Bush reforçar o empenho na guerra.
O vice-presidente Dick Cheney tomou a dianteira na de­fesa de um maior empenho no Iraque, e renovou mesmo os princípios da guerra preventiva, generalizada e sem quar­tel que o Projecto para o Novo Século Americano preconi­zou em 2000. Cheney, numa entrevista dada em Janeiro à Fox News, defendeu sem peias a via militar (“por todos os meios”) como a forma mais eficaz de os EUA assegurarem os seus interesses de potência imperialista; vincou que o “erro mais fatal” para os EUA seria “fazer as malas e retirar” do Iraque; disse que o Iraque era apenas uma parcela de uma “guerra mundial” travada desde o Paquistão até à Áfri­ca do Norte; e acrescentou que esse conflito “vital” para os EUA ocupará “a nossa política” e “o nosso gover­no” du­rante os próximos 20, 30 ou 40 anos.

A estupidez atribuída a Bush e o extremismo dos neo­con­­servadores não explicam nada sobre esta via militar. Bas­ta atentarmos no facto de o caminho para ocupar o Ira­que ter sido meticulosamente preparado, numa sequência con­certada de operações, desde 1991, com a primeira guer­ra do Golfo, promovida pelo republicano Bush-pai, pas­sando pelos dez anos de governo do democrata Clinton. A guerra foi-se tornando o meio praticamente exclusivo de os EUA se defenderem na competição com as potências que lhe dis­putam a hegemonia. Na verdade, os EUA não têm já a ca­pacidade económica de outrora, capacidade que então lhes facultava argumentos comerciais e políticos para se imporem e derrotarem os concorrentes. Dependentes co­mo hoje são dos bens e dos capitais de todo o mundo, os EUA correm o risco de perderem no confronto com a UE ou a China, ou mesmo algumas das potências regionais que emer­gem, sempre que disputam vantagens na base dos sim­ples recursos económicos, ou quando se sujeitam às re­gras da diplomacia. Para não perderem têm de fazer uso do seu trunfo mais poderoso: a força militar.
Factos recentes vêm mostrar que se acentua a decadência dos EUA como potência económica. E é essa circunstância de fundo que torna mais difícil aos governantes norte-ame­ricanos fazerem valer os interesses do capitalismo norte-ame­ricano se não for por meios violentos.
Números do International Capital Market Association* mos­tram que, em 2006, pela primeira vez no mercado mundial, o valor dos empréstimos em euros ultrapassou o dos dólares (45% contra 37%) invertendo uma situação que em 2002 era francamente favorável ao dólar (51% contra 27%). O euro passou assim a ser a moeda com maior circulação mundial, destronando o dólar. Consequências imediatas: os pro­duto­res mundiais de petróleo (como os Emiratos Ára­bes Unidos, o Irão, a Venezuela e a Indonésia ) começaram a converter em euros parte das suas reservas monetárias em dólares, ou a facturar em euros as vendas de petróleo; e os países com­pradores tiveram que adquirir euros para po­derem com­prar petróleo. Isto significa também uma diminuição da procura mundial de dólares.
De acordo com um comunicado do ministério das Fi­nan­ças dos EUA de Janeiro de 2007, as compras de acções, de notas e de obrigações por estrangeiros passaram de 85,3 para 68,4 mil milhões de dólares entre Outubro e No­vembro de 2006. Quer isto dizer que o afluxo de capi­tais idos do es­trangeiro teve uma quebra substancial. Como esse afluxo é indispensável para financiar o défice comercial e o défice de Estado dos EUA, a quebra traduz-se num agra­vamento da situação económica norte-americana.
A economia norte-americana parasita o mundo inteiro. Os EUA são o maior devedor mundial. Se parte dos seus cre­dores resolvesse exigir-lhes que saldassem as contas, os EUA não o poderiam fazer sem que a sua economia sofres­se um colapso de dimensões catastróficas. Perante esta ameaça, o imperialismo norte-americano comporta-se como um de­vedor que mantém os credores em respeito apon­tando-lhes uma pistola à cabeça. Enquanto puderem manter as suas ameaças militares, os EUA vão adiando o acer­to de contas da sua economia. Mas os insucessos mili­tares, como o que se verifica no Iraque e no Afeganistão, ou o que sofreram os seus mercenários israelitas no Líbano, abalam esse poder de coacção.
A política de Bush e o discurso terrorista de Cheney não são fruto de loucura – são a consequência lógica de quem perdeu poder de persuasão pela simples via da com­petição económica e pelo simples método da negociação política. Reside aí a fonte da tentação, para o poder norte-ame­ricano, de dar sempre mais um passo na direcção da amea­ça militar – tornando-a o argumento praticamente ex­clusivo da política imperialista norte-americana.

* William A. M. Buckler, Horizons et Débats, 14.2.07.

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