Vanguarda e massas – pequenos exemplos

Vladimiro Guinot


No ano passado, em Setembro, cerca de noventa traba­lhadores da empresa de construção civil Pereira da Costa, na Venda Nova, Amadora, foram despedidos só porque o pa­trão assim o decidiu. Por essa altura, todos os trabalhado­res, de maioria operária, decidiram “assentar arraiais” em fren­te da empresa exigindo a reintegração dos seus camara­das. Esta situação manteve-se até que, em Novem­bro, o pa­trão trancou as portas da empresa, foi-se embora e man­dou para o desemprego 140 trabalhadores sem o pa­gamento dos salários em atraso. O montante da dívida do patrão aos trabalhadores ascende a três milhões de euros.
Os trabalhadores, até hoje, não abandonaram a zona, fa­­zem piquetes 24 sobre 24 horas e reclamam o pagamento da dívida e a sua reintegração na empresa. A 13 de Março, a polícia carregou brutalmente sobre os trabalhadores por estes se oporem à saída de equipamentos da empresa.
Pego neste caso para ilustrar como deve ser a relação entre a vanguarda e as massas: estes trabalhadores estão em luta há mais de seis meses. A vanguarda devia, des­de o início da luta, ter comparecido no local onde ela se de­senrolava, falar com os trabalhadores, ouvir os seus teste­munhos e, da maneira que lhe fosse possível, nem que fosse através dum comunicado, ir pelas ruas e empresas do con­celho apelar à solidariedade popular para com os traba­lhadores da Pereira da Costa. Saber das suas dificuldades e da sua vontade em continuar a luta. Saber até onde estão dispostos a ir. Aproveitar a oca­sião para lhes dar exemplos de lutas vitoriosas de outros trabalhadores no país e no estrangeiro, transmitir-lhes o pensar da vanguarda acerca do governo e do sistema capitalista, falar sobre a guerra do Ira­que e o significado das invasões e ocupações, pelas super­potências, de países até há pouco tempo independentes e so­beranos, e sobre a União Europeia, o que ela representa para os tra­balhadores, confraternizar e até beber um copo com eles (não esquecer de levar a garrafa).
Fazer o mesmo com as 50 operárias da Grésmais, em­presa de cerâmica em Vale do Grou, Águeda, despedidas pelo patrão sem mais explicações e que, até hoje, se mantêm em vigília à porta da empresa para exigir o cumprimento dos seus direitos contratuais, receberem os salários em atra­so e não deixar sair nem máquinas nem mercadoria da fá­brica até que o patrão cumpra as suas obrigações.
Correr já para Santa Maria da Feira para apoiar as 1300 ope­rárias da Rohde, empresa alemã de calçado, que estão em luta pelo pagamento dos salários em atraso e contra as ameaças de encerramento da empresa. Esta empresa, que ainda no ano passado encerrou a fábrica de Pinhel crian­do mais trezentos desempregados, há mais de seis anos que anda a “mamar” à custa dos dinheiros da Segurança Social, colocando os seus trabalhadores em lay-off quase todos os anos.
Voar para o Vale do Ave, onde a Zara se prepara para lan­çar no desemprego cerca de 10 mil trabalhadores, agra­vando ainda mais a situação miserável que se vive naquela re­gião, porventura a mais flagelada do país pelos despedi­mentos.
Ir até Mangualde, onde a Citroën anda a preparar o encerramento da sua fábrica nesta localidade deslocalizando-a para Vigo, na Galiza. Fazer entrevistas com os trabalhado­res, procurar saber o que é que eles pensam fazer da vida que lhes resta. Percorrer o país onde haja desemprego e mi­séria e, naturalmente, descontentamento social.

É intervindo nesses sítios que as massas reconhecem a van­­guarda como algo que lhes diz respeito e lhes merece admi­­ração. É assim o que eu penso como deve ser a relação da vanguarda com as massas. E, apesar de todas as limita­ções, quer financeiras quer de mão-de-obra militante, a acção política do Jornal do Trabalho tinha, sobretudo na Mar­gem Sul, muito daquilo que atrás deixei escrito.

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