O regime cobre-se de merda

Francisco Rodrigues


Estão na moda os simulacros de elei­ções – “elei­ções”, livres, democráticas, par­ticipadas, disputadas… só que em tor­no de coisa nenhuma. É uma forma de os comissários do regime nos compen­sarem da baixeza m­afiosa em que se afun­­da a vida política. Desta vez, a grande opção oferecida pela RTP aos portugue­ses foi elegerem, livre e democra­tica­mente, “o maior por­tuguês de sempre”. E depois de semanas de acesos de­bates e com a expectativa levada ao rubro, lá saiu na lotaria o Salazar!
Por muito habituados que estejamos ao clima de cano de esgoto da ideologia oficial, a coisa passa das marcas. Que a televisão oficial do Estado tenha patroci­nado uma cena como a da noite de 25 de Março, com o público a aplau­dir poli­damente a “eleição” do ditador como “o maior português de sempre” (ainda por cima engrandecido pela vitória sobre Álvaro Cunhal, graças à tola obstinação de Odete Santos em entrar na palha­ça­da), roça o obsceno. É um passo mais na degradação das instituições e na des­moralização do povo.
Deitando água na fervura para ajudar a engolir a pílula, alegam os comentado­res de serviço que se tratou apenas de um jogo a que não se deve atribuir signifi­cado político, porque “hoje temos uma maior maturi­dade e já podemos dis­cutir a ditadura e o ditador sem extremar posi­ções”. Tretas! Como se não estivéssemos a ver os sinais diários da reabilitação do salazarismo nas patacoadas académicas, nas provocações do PNR, nos grupos fas­cistas que vão mos­trando a cara nalgu­mas universidades e até no orgulho boçal dos desgra­çados santa-combenses que reclamam para a sua terra um museu do ditador.
Como se luta contra esta praga? É aqui que nos separa­mos dos que conde­nam o revivalismo salazarista como uma ofensa às instituições, e, para atacar o fascis­mo, digni­ficam o regime actual – foi o que fizeram nas últimas sema­nas in­te­lectuais e parlamentares do PC, do BE, do PS. O sur­to salazarista que por aí vai não re­presenta uma ameaça ao po­der instituído; é mais uma das suas mani­festações. Não é uma aberração de ma­ní­acos; é um subproduto das pulsões reaccionárias, obscu­rantistas, xenófobas da bur­guesia no poder.
É por isso que ir junto do povo con­trapor as “virtudes” deste regime à bar­bárie da ditadura, como fazem esses de­­mocratas, é contraproducente e só pode atirar mais e mais pessoas simples para a armadilha da propa­ganda fas­cista. De­nunciando os crimes do fascismo, temos que lhes dizer que têm toda a razão em execrar a “democracia” actual. A nos­sa tarefa não é defender este regime contra o outro, é mostrar que o poder da burguesia é sempre anti-popular e só pode ser antipopular.

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