Bush na América Latina

A ronda do etanol

ALAI


A visita latino-americana de George W. Bush visa claramente alterar a correla­ção de forças no hemisfério. O seu pon­to crucial foi a assinatura com Lula da Silva de um vasto plano para a expansão da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar.
Houve naturalmente outras questões na agenda do presidente dos EUA. No Uruguai, confirmou a aproximação co­mercial em que ambos os governos vêm tra­balhando há mais de um ano. Na Co­lômbia, deu apoio ao governo de Álvaro Uribe, mergulhado numa séria crise de­vido ao seu envolvimento com os para­militares, e estudou formas de enfrentar o novo governo do Equador depois de Ra­fael Correa ter anunciado que não renovará o acordo para a utilização da base militar de Manta, estratégica para o prosseguimento do Plano Colômbia. Na Gua­temala é a previsível eleição da pré­mio Nobel Rigoberta Menchú nas pre­si­denciais de Setembro que preocupa Wa­shin­gton. Por último, no México Bush irá ajudar Felipe Calderón a enfren­tar a contestação popular que não afrouxa.
Enquanto Bush e o presidente uru­guaio Tabaré Vázquez se reuniam, a es­cassos 50 quilómetros, na outra margem do rio del Plata, Hugo Chávez encabe­çava um imponente acto anti-imperia­lista, participado por muitos movimen­tos sociais argentinos, numa evidente demonstração das contradições que di­vi­dem os governos “progressistas” da região. De facto, a manifestação promo­vida por Chávez não visava só o repúdio pela política de Bush; era também uma crítica ao rumo pró-ianque seguido pelos governos brasileiro e uruguaio.
A decisão de Lula, porém, está toma­da e à frente da nova Comissão Intera­mericana de Etanol ficaram Jeb Bush, irmão do presidente, ex-governador da Flo­rida, e o brasileiro Roberto Rodri­gues, representante do agrobusiness no go­verno Lula, onde ocupou até há pouco o lugar de ministro da Agricultura. Pri­meiro produtor mundial de etanol, o Brasil controla, juntamente com os Es­tados Unidos, 72 por cento da produção mundial. Mas enquanto o etanol norte-americano, produzido a partir do milho, tem baixa produtividade, a produção de cana-de-açúcar é cinco vezes mais efici­ente e colocará o Brasil na vanguarda mun­dial da produção energética.
Um acordo a longo prazo com o Brasil permitirá aos EUA diversi­ficar a dependência do petróleo, re­duzindo as importações da Vene­zuela e do Médio Oriente, e travar a integração económica dos países do hemisfério sul, activada no ano passado pela valorização do crude. Bush retoma assim as suas am­bições de domínio, desfeitea­das pelo fracasso do ALCA na cimeira de Mar del Plata.
Não por acaso, Chávez criticou frontal­mente o etanol como alternativa ao pe­­tróleo. Avisou que a ex­pansão da cana-de-açúcar for­ta­lecerá a tendência para o monocultivo e encarecerá os alimentos. Para manter o seu estilo de vida à base do etanol, acres­­centou, os EUA precisariam de cin­co a seis vezes a superfície do planeta. Um manifesto assinado em fins de Feve­reiro pelo MST, Via Campesina e outros movimentos sociais latino-americanos denuncia o acordo sobre o etanol como parte da estratégia geopolítica dos EUA para enfraquecer a influência de países como a Venezuela e a Bolívia na região.
Assim, o projecto do etanol faz emer­­gir a velha política das classes go­vernantes latino-americanas para a alian­ça com o imperialismo.


* Adaptado de ALAI - Serviço Informativo Agência Latino-Americana de Informação.
(info@alainet.org URL: http://alainet.org)

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