Greve geral a meio gás


A greve geral de 30 de Maio, protesto justificado do mundo do trabalho contra a escalada de ataques lançados pelo governo, coroamento necessário de uma sucessão de grandes manifestações, não foi contudo a “histórica jornada de luta” de que fala o
Avante. Não teve o poder suficiente para travar a ofensiva do capital.
A burguesia, naturalmente, tenta fazer crer, em coro, que a greve foi um fracasso. Mas é um facto que nem todos os objectivos da greve foram alcançados, longe disso.
Largamente seguida nas grandes empresas dos transportes e comunicações, em muitos sectores da administração central e local, nos professores, enfermeiros, etc., a greve não assumiu contudo uma dimensão que a impusesse como um “cartão vermelho” ao governo, forçando-o a fazer marcha atrás.
Isto aconteceu por causa da indecisão de grandes massas de assalariados, do receio de muitos perante as manobras intimidatórias do governo, com a inqualificável chantagem dos “serviços mínimos”, mas também pela ausência de organização sindical em grande parte do sector privado. A situação na indústria é hoje muito mais difícil do que quando da greve de Março de 1988 contra o pacote laboral do Cavaco. São muitas as grandes e médias empresas que já não dispõem de estruturas sindicais actuantes. Em todo o lado, a precariedade e os recibos verdes cortam as pernas ao espírito de luta dos mais jovens.
Mas não só. O pleno êxito da greve foi comprometido também pela luta surda que se vem travando nas cúpulas da Inter entre a maioria afecta ao PCP e as correntes que giram na órbita da social-democracia. Desde há meses era pública a oposição de uma parte dos órgãos dirigentes e do próprio coordenador Carvalho da Silva a avançar para a greve. De resto, foi isso que indicou o embaraço e incapacidade de reacção de Carvalho da Silva perante as grosseiras interrupções dos jornalistas, ao fazer o balanço da greve para a televisão.
Ao convocar a greve geral, a CGTP correspondeu aos interesses mais prementes dos trabalhadores. Mas o peso de três décadas de compromissos, o progresso da burocratização interna e o declínio da sua influência não permitiram que a greve tomasse uma amplitude indiscutível.
Quem fica mal neste embate é, mais uma vez, a direcção da UGT, fiel à sua vocação “amarela”, e também o BE, cuja aliança com socialistas e “renovadores” tem acentuado a tendência de social-democratização da central.
Aproximam-se tempos de crise interna na CGTP. É urgente que os sindicalistas revolucionários, poucos e ainda isolados, intervenham de forma autónoma nas suas
empresas pela revitalização do movimento sindical.

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