“Reactivar o movimento sindical a partir das comissões de trabalhadores”

Entrevista com Altamiro Dias*


O teu balanço da greve geral?
Não tenho uma informação global mas ficou aquém do que se esperava. Houve boa adesão na função pública e nalgumas grandes empresas onde a organização sindical está implantada, como a Telecom, CTT, Metro, Transtejo. Na CP falhou devido à não adesão do Sindicato dos Maquinistas. No testo, foi fraca porque não há estrutura sindical para dar o empurrão.
Já na jornada de luta de 2 de Março se viu perfeitamente o contraste entre a forte representação da função pública, administração local (STAL), professores, algumas grandes empresas tradicionais, e a fraca presença do sector privado em geral: indústrias, serviços, tudo. Pelo meu sector, do Papel e Gráficos, vejo que a organização sindical se vai restringindo a algumas grandes empresas. No resto o movimento recua, desaparecem as comissões sindicais, a mobilização é mais difícil.

Mas não há revolta contra os ataques do patronato e do governo?
O ambiente, pelo que posso observar, é de muito descontentamento misturado com medo, frustração e impotência. Espírito de revolta só em algumas franjas. Há muita incerteza no futuro. Oiço jovens perguntar “O que é isso da flexi-segurança? O que vai ser do meu posto de trabalho?” A precariedade cada vez maior corta as pernas ao espírito reivindicativo.
Por outro lado, criou-se um corte entre os mais velhos, com experiência de luta, mas que são cada vez menos e que têm cada vez menos peso, e a geração mais jovem, mais individualista, mais aberta a aceitar a polivalência. São jovens com o 12° ano, com outra informação, têm tendência para olhar por cima do ombro para homens com uma longa
experiência mas que só têm a 4ª classe. A mensagem não passou de uma geração para a outra.

A organização sindical não funciona?
Nas empresas onde existe uma organização sindical forte, que intervém nos problemas directos dos trabalhadores, consegue-se mobilizar. Mas quando caem lá de pára-quedas alguns desses velhos quadros, desligados da realidade, a debitar os seus discursos, é o mesmo que pregar para as moscas. Ouvi num plenário bocas do género: “Vêm para aqui falar por causa da jornada de luta. Quando precisamos que respondam aos nossos problemas não aparecem”.

Que fazer?
Não acredito que haja uma receita para mudar isto. Depende das circunstâncias de cada empresa, de cada sector. Uma coisa é certa: dizer que os sindicatos “não interessam” porque são “reformistas”, “reaccionários”, é absurdo. Isso é o mesmo que cortar os laços com a classe. Tem que se fazer trabalho sindical, ganhar a confiança dos camaradas de trabalho através do nosso esforço, dar-lhes confiança para a luta. Mas não como delegados sindicais: são uma espécie de moços de recados das cúpulas, distribuem papéis e pouco mais. Acredito que a reactivação do movimento sindical pode ser feita a partir das comissões de trabalhadores. A CT abrange todos os trabalhadores de uma empresa, está ligada directamente aos problemas que lá se vivem. É necessário dar confiança aos que ainda estão dispostos a lutar através de folhas volantes que falem da situação concreta de cada local e apontem o caminho. Este pode passar por projectos de unidade com os seus representantes mas com propostas autónomas, ou mesmo por novas formas de organização sindical, a partir de listas alternativas para as comissões de trabalhadores.
Essa pode ser a semente de uma nova corrente sindical combativa.


* Altamiro Dias, de 51 anos, foi dirigente do Sindicato do Papel e Gráficos e membro da CT da sua empresa. É activista sindical.

VOLTAR