Marinha Grande

“Globalização” cá dentro

Licínio Sousa


Na fábrica de limas Tomé Feteira, na Vieira de Leiria, tentei falar com um operário mas o medo das represálias é tão grande que ninguém quer dar a cara. Esta fábrica, que à data do 25 de Abril de 1974 tinha cerca de mil trabalhadores, hoje está reduzida a 50. Passou para a posse de um austríaco, que comprou a empresa pelo valor das dívidas e foi para lá viver com a família. Os operários que ficaram trabalham por turnos e fazem horas extraordinárias para assegurar a produção. A troco de lhes ir pagando em prestações os salários e subsídios em atraso, o novo patrão trata-os como uma espécie de criados de quinta, obrigados a fazer todos os serviços, até estábulos para os cavalos.
“E o sindicato não intervém?”, pergunto. Esclarecem-me que o sindicato, que tinha sede na Vieira, encerrou. O presidente, Manuel Cruz, conhecido burocrata do PCP, decidiu reformar-se antes do tempo e ocupa-se agora do cargo na Assembleia Municipal de Leiria, para que foi eleito pela CDU. Com o sindicato de Leiria transformado em simples delegação, o apoio sindical que estes trabalhadores recebiam, se até aqui era escasso, passou a ser praticamente nulo.
“E as autoridades, não dizem nada?”, insisto ainda. Mas, ao que parece, as “forças vivas” da terra, autarcas, governador civil de Leiria, etc., estão todos em boas relações com o patrão austríaco, que os convida para grandes festas. Para eles, corre tudo pelo melhor.
Falei depois com ex-trabalhadores da vidreira Dâmaso, à espera de receber aquilo que lhes ficaram a dever Dizem-me que já não há esperanças na reabertura da fábrica e que estão na dependência das démarches e das promessas do presidente da Câmara, quanto aos salários em atraso, subsídios não pagos, etc. Entretanto, os bens da empresa vão-se exaurindo às mãos dos liquidatários judiciais, até que nada reste, como aconteceu com as extintas empresas Manuel Pereira Roldão, IVIMA, Marividros, etc. Note-se que estamos a falar de 1800 operários vidreiros da Marinha Grande e Vieira, explorados, roubados e lançados à rua.
“E o sindicato, o que faz?”, pergunto de novo. Aqui também se reformou o presidente do Sindicato Vidreiro, Sérgio Moiteiro. De resto, há já tempo que o patronato deixou de se preocupar com acções sindicais. E citam-me o caso da fábrica de garrafas Ricardo Gallo, comprada por empresários espanhóis. Para se verem livres do pessoal em “excesso”, compraram a antiguidade dos operários a 5.000 euros por cabeça e mandaram-nos para casa. Os que ficaram conhecem agora a mão de ferro dos novos patrões.
Quanto ao tão propagandeado “sucesso” da indústria de moldes da Marinha Grande, é o sucesso de algumas grandes empresas, à custa das mais pequenas, que estão a fechar umas atrás das outras. A última foi a Novateca. Só ficam as maiores. É a “globalização” cá dentro. O PS da Marinha Grande acha que vai tudo pelo melhor e não admira:
algumas das principais empresas de moldes pertencem a conhecidos “socialistas”, como Henrique Neto, Telmo Ferraz, Jorge Martins. O PCP, como já é hábito, canaliza todos
os protestos para fortalecer as suas posições autárquicas. E a intervenção do BE, afundado nas velhas fórmulas do centralismo burocrático, é praticamente nula.
Com a extinção da Vitrocristal, empresa pública vocacionada, segundo se anunciou no tempo do governo Guterres, para impulsionar a reestruturação do sector vidreiro, o stock e equipamentos foram vendidos ao desbarato pelo IAPMEI e agora ninguém presta contas pelos rios de dinheiros públicos investidos em vão, pelos postos de trabalho destruídos, pelo descalabro de uma indústria. Como de costume, a culpa vai morrer solteira, Já lá vai o tempo em que Louçã, em visita às fábricas, prometia uma acção enérgica no parlamento. Actualmente, Câmara Municipal, sindicato, PCP, BE, deixam correr Se os operários não voltarem a fazer ouvir a sua voz ninguém lhes acode.

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