Darfur

Sudão na agenda do imperialismo EUA

Manuel Raposo


O conflito no Darfur é dado como um exemplo de “genocídio”, de base ra­cial, étnica e religiosa em que os carrascos seriam os “árabes muçulmanos radicais” detentores do poder em Cartum. A ver­dade é bem diferente.
O que se passa no Darfur é uma guer­ra civil em que forças da região reclamam uma partilha do poder político e econó­mico no Sudão. Na continuidade e a exem­plo, aliás, da guerra travada no sul do país entre 1983 e 2005 (depois da des­coberta de grandes jazidas de petróleo em 1979), terminada com acordos de par­tilha do poder político e do petróleo. O êxito da rebelião sulista terá incenti­vado as forças do Darfur a fazer o mes­mo, já que, entre outras, a mesma questão da partilha do petróleo se coloca. Acor­dos de paz para o Darfur foram assina­dos em Maio de 2006, em Abuja, Nigéria, mas não puseram fim ao conflito porque duas das organizações rebeldes se senti­ram excluídas e rejeitaram o entendimen­to entre o poder central e o Movimento pa­ra a Libertação do Sudão.
Igualmente sem base é a acusação de guer­ra racial, étnica e religiosa. Com efei­to, há séculos que existe um cruzamento das populações de origem árabe (perto de 50% do total) com as populações ne­gras, não sendo possível hoje, apesar da di­versidade, fazer nítidas distinções ra­ciais. Ao mesmo tempo, deu-se uma ara­bização de toda a população (que fala o árabe, bem como línguas africanas locais) e uma islamização que fez de 75% dos su­daneses muçulmanos, incluindo o Dar­fur, muçulmano a 100%. Entre as for­ças rebeldes darfurianas contam-se as tribos de origem árabe; e no lado contrá­rio, os “Janjawids”, milícias que o gover­no usa contra os rebeldes, são formados por mercenários de todas as origens, “ára­bes” e negro-africanas, arregimenta­dos pela situação de miséria e para os quais as motivações religiosas ou raciais não contam.
A propaganda que pinta o conflito no Darfur como uma guerra entre “ára­bes-islamitas-radicais” e “africanos” des­tina-se a induzir a ideia de que se tem ali uma nova frente de combate ao “ter­ror islamista” contra o qual a “comuni­dade internacional” tem de intervir. Esta ideia interessa ao imperialismo norte-americano – e tem sido de certo modo acolhida na União Europeia.
Perceber-se-á melhor o porquê disto conhecendo o quadro dos interesses in­ternacionais, de natureza imperialista, que se disputam no Sudão.
Tudo gira, sobretudo, em volta das grandes reservas petrolíferas sudanesas, na maioria inexploradas; e também das jazidas de gás natural, de urânio e de co­bre de importância mundial. Conta tam­bém a dimensão e a posição geográfica do Sudão, no coração da África Central.
O Sudão tornou-se uma potência pe­trolífera importante depois da constru­ção, em 1999, de um oleoduto que liga as regiões petrolíferas do sul e centro ao Mar Vermelho. Acontece que nenhu­ma das grandes companhias petrolíferas oci­dentais tem papel na produção. No­venta por cento do petróleo sudanês é explorado por um consórcio (a Nile Pe­troleum Corporation) em que a China de­tém 50% do capital, a Malásia 30%, a Índia 15% e o Sudão 5%. Para além dis­to, a francesa Total, a argelina Sonatrach e várias companhias russas e japonesas possuem concessões adormecidas há 20 anos.
A China tornou-se em poucos anos o principal parceiro (e beneficiário) es­trangeiro da economia sudanesa. Das 15 principais empresas estrangeiras implan­tadas no Sudão, 13 são chinesas. Dois ter­ços do petróleo sudanês é comprado pe­la China. Mais: para além do Sudão, a China é hoje o terceiro parceiro comer­cial da África, depois dos EUA e da Fran­ça, tendo multiplicado o volume de negócios a um ritmo imparável desde os anos 90.

Este é o quadro. Os interesses norte-americanos estão arredados do Sudão; e o petróleo sudanês alimenta o cresci­mento económico chinês. Os EUA não to­leram que a China, ou outra potência con­corrente, ganhe raízes sólidas no Su­dão e em África porque isso significa per­da de recursos e um desafio intolerá­vel à sua hegemonia mundial.
Sobre a base de um conflito interno, fa­brica-se mais um episódio da grande cru­zada de Bush e Cheney, que aliás co­meçou com o bombardeamento da prin­cipal fábrica de medicamentos do Sudão, a mando de Bill Clinton, em 1998; e pros­segue com o apoio dado à rebelião no Darfur, fazendo tábua rasa dos acor­dos de Abuja.
Como na Jugoslávia e no Iraque, o im­perialismo norte-americano alimenta os conflitos internos do Sudão e procura tirar proveito deles. A campanha em tor­no dos direitos humanos destina-se a comover e a neutralizar a opinião pública – e a abrir caminho a uma intervenção mi­litar directa, abertamente reclamada nos meios do poder norte-americano.

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