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110 - MAIO / JUNHO 07

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Linguagem e medo global

Na era vitoriana, as calças não podiam ser mencionadas na presença de uma menina. Hoje, não fica bem dizer cenas coisas na presença da opinião pública.
O capitalismo ostenta o nome artístico de economia de mercado, o imperialismo chama-se globalização.
As vítimas do imperialismo chamam-se países em vias de desenvolvimento, o que é como chamar de crianças aos anões.
O oportunismo chama-se pragmatismo, a traição chama-se realismo.
Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.
A expulsão das crianças pobres do sistema educativo é conhecida sob o nome de deserção escolar.
O direito do patrão a despedir o operário sem indemnização nem explicação chama-se flexibilização do mercado laboral.
A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.
As torturas chamam-se pressões ilegais ou também pressões físicas e psicológicas.
Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões e sim cleptómanos.
O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos responde pelo nome de enriquecimento ilícito.
Os mortos em batalha são baixas, e as de civis que a acompanham são danos colaterais.

Eduardo Galeano

Mundialmente celebrizado pelo seu livro As veias abertas da América Latina,
que descreveu como "uma história de piratas", o grande escritor e jornalista uruguaio
tem uma vasta obra de acusação ao imperialismo

 

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